Ranço, ranho, etc.
Luis Fernando Verissimo
Sempre achei "ranço" uma das palavras mais feias de qualquer língua, mas há pouco, lendo uma matéria sobre conhaques, descobri que aquele aroma característico das grandes "eaus-de-vie" da região de Cognac, que vem com o envelhecimento e a consolidação do seu caráter, se chama "rancio". Não sei se a origem de "rancio" e "ranço" é a mesma - deve ser, ambas têm a ver com cheiro. Mas "ranço" tanto pode vir de "rancidus", latim para fedorento, quanto de "rancor", latim para rancor, duas coisas muito distantes do perfume profundo de um bom conhaque, que só induz à paz com a vida e com o próximo. Se elas são ou não irmãs etimológicas, não importa. "Rancio" reabilita "ranço".
"Ranho" é outra palavra horrível. Mas num recente resfriado fiquei pensando não na origem da palavra, que talvez seja melhor nem investigar, mas da coisa. De onde, exatamente, vem o ranho? Desculpe se estou sendo nojento além do normal, mas a não ser que se aceite a idéia de uma reserva ilimitada da mucosa em algum lugar no nosso organismo, só esperando um resfriado ou uma alergia para aparecer, não há uma explicação lógica - pelo menos que satisfaça leigos absolutos em medicina como eu - para o ranho. Que, como sabemos todos, pode correr durante dias e atingir volumes industriais. No fim a única explicação para a existência sempre renovada do ranho é a mesma usada para explicar a existência sempre renovada da matéria. Em qualquer teoria sobre a evolução do Universo sempre se chega a um ponto em que a única alternativa plausível é a da geração espontânea: do nada se cria alguma coisa. É o ponto em que a física encontra a metafísica e em que o cientista fica sem assunto e o religioso diz "arrá". O ranho é a reprodução, dentro de nós, deste mistério cósmico. O ranho se cria do nada. Da próxima vez que assoar o nariz, pense nisto: você pode estar deixando no lenço de papel um dos fortes argumentos para a existência de Deus.
E já que estamos sendo nojentos...
Dos perigos da tradução. Uma vez vi um filme sobre a Guerra Fria em que se comentava sobre um cientista russo que ele tinha "defected to the Americans". Tinha se entregado aos americanos, passado de lado, pedido asilo. O tradutor se confundiu e nas legendas aparecia que o russo tinha defecado para os americanos. O que tornava a trama incompreensível para o espectador. Era difícil entender como alguém que praticara aquele ato de desafio e desrespeito estava, mesmo assim, sendo tão bem recebido em Washington. O próprio tradutor não se deu conta da inconsistência da situação, tanto que continuou a identificar o "defector" como o "defecador russo", até o fim do filme, apesar de não aparecer nenhuma cena em que ele justificasse o apelido.
Também havia - felizmente não há mais - os tradutores que adaptavam em vez de simplesmente traduzir os diálogos dos filmes. Exemplo também inesquecível: o herói pergunta para a mocinha algo como "What are you thinking about?", em que você está pensando, e a tradução que aparecia era "Pensando no último Fla-Flu?". O que seria uma tentativa até defensável de transportar o espírito do filme para a realidade nacional se a história não se passasse na Inglaterra do século 18.
Hoje, imagino, o maior problema para os tradutores nacionais é o que fazer com o "fucking", que aparece a cada três palavras de qualquer diálogo de filme americano.
E às vezes é melhor deixar as palavras sem tradução. Amiga nossa, nascida e criada na fronteira com o Uruguai, contava que durante toda a vida sua avó usara a palavra "hodido" para se referir a alguém mal de vida, passando dificuldades, doente. Só quando a velha já tinha 90 anos alguém se lembrou de perguntar se ela sabia o significado da palavra "hodido" em espanhol. Não sabia. E sua vergonha foi maior porque teve que retroagir 90 anos.
Domingo, 11 de dezembro de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.